Contos

Somos filhos da rua e da noite

O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:

— Esse cobertor é meu.

O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.

— Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.

Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.

— Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.

— Esse carro —, explicou o Zé Preto.

— Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.

Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.

— Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.

Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.

— Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.

Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.

O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.

— Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.

— Meu sangue — disse o Zé Preto.

— Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.

As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.

— Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.

José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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